Existe um momento, no contato com a argila, em que a peça se faz. Ela se cria, ganha vida própria, e eu me torno um mero instrumento a serviço dela. É ela quem diz a que veio.
Mas há momentos em que o tempo é largo, e a peça se manifesta aos poucos. É o caso desta. Incógnita me traz incerteza e, ao mesmo tempo, coerência. Não sei do que se trata, mas essa peça me fascina.
Contorso é o gesto do corpo que se torce diante daquilo que o atravessa. Tensão e movimento, contração e abertura, defesa e desejo: um corpo que não permanece estático, que reage, se transforma e encontra outras formas de existir.
Se no corpo a tensão desenha seus desvios, a curva abre passagem.
Contorno nasce de uma investigação do feminino através da argila. Um corpo que não se revela por inteiro, mas se oferece em fragmentos, relevos, delicadezas e silêncios.
As curvas não são apenas formas. São caminhos. Desvios que conduzem a territórios íntimos, percursos que guardam algo de secreto, de indizível.
Há suavidades que não são ausência de força. Há delicadezas que abrigam profundidades.
Na matéria, o gesto encontra outras possibilidades de existir. A superfície acolhe marcas, a forma se expande e o corpo se torna paisagem: um lugar a percorrer, sem a necessidade de chegar.
Se o Contorso é tensão, movimento e contração, o Repouso é o seu contraponto: relaxamento, pausa, o momento em que a obra se volta para si. Aqui os rostos não reagem, contemplam, de olhos semicerrados.
É o que acontece em nós quando algo nos convida à contemplação, seja externo ou interno: o corpo se aquieta, e o olhar encontra espaço para refletir.
"Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante, de uma estrela que virá numa velocidade estonteante"
— Um Índio, Caetano Veloso
O trabalho nasce do desenho de observação e segue para o barro, em etapas confirmadas uma a uma — cor, acabamento, verniz — até a peça encontrar seu próprio ponto de repouso.
Peças em tecidos e fibras que contrastam com a aspereza e o peso do barro.
Trabalhos de ilustração e desenho, incluindo o desenvolvimento visual de Sitra'Za.
Sitra'Za é uma narrativa ilustrada sobre o que só se revela nas lacunas, sobre o silêncio como outra forma de linguagem, e sobre o que acontece quando um vilarejo inteiro precisa olhar para dentro da luz.
Poucos aprendiam onde olhar.
Vernissage em 15.10, às 19h. Entrada gratuita.
Duas artistas, duas trajetórias, duas linguagens.
EM PARALELO nasce do encontro entre experiências distintas que encontraram na arte uma possibilidade de expressão. Há, por trás desse encontro, experiências de sofrimento psíquico, inquietações, atravessamentos e estados internos que, em diferentes momentos, pediram uma forma de existir para além do pensamento.
Mas esta não é uma exposição sobre o sofrimento.
É sobre o que fazemos com aquilo que nos atravessa.
O que acontece quando uma experiência interna encontra a matéria? Quando um sentimento encontra a cor? Quando o pensamento encontra o gesto, o corpo, a imagem, a palavra?
Na escultura, o barro torna-se corpo, presença e movimento. A matéria exige contato, força, pausa e delicadeza. Na pintura, cores, formas e personagens recebem aquilo que veio do mundo, foi processado internamente e retorna como expressão. São percursos diferentes, mas que se encontram na necessidade de transformar a experiência em linguagem.
De dentro para fora.
De fora para dentro — e novamente para fora.
Em paralelo.
A exposição propõe um espaço de abertura. Não para oferecer respostas, mas para provocar perguntas. Para observar de perto aquilo que tomamos como certeza. Para experimentar outras formas de perceber, criar e estar em relação.
O fazer artístico aparece como um recurso externo para um movimento interno. E o movimento interno, por sua vez, modifica aquilo que encontramos fora.
Ao longo da exposição, encontros, música, colagem, conversa e movimento ampliam esse campo de experiência. O público deixa de ocupar apenas o lugar de observador e é convidado a participar, criar e perceber.
Na instalação ENTRE NÓS, uma pergunta se desloca do individual para o coletivo:
Como você se expressa?
Onde sua expressão encontra a expressão do outro?
Qual a sua contribuição no todo?
Qual a nossa?
Somos parte e relação.
Cada experiência acrescenta uma camada. Cada gesto pode encontrar outro gesto. Cada expressão pode reverberar em outra.
Porque talvez seja justamente nesse espaço entre o que sentimos, o que expressamos e aquilo que encontramos no outro que novas experiências começam a se formar.
EM PARALELO é um convite à autorreflexão, à experimentação e ao desconhecido.
Sem saber exatamente onde iremos chegar, nos aventuramos.
Experimente.
Rama Sitaara é artista plástica e visual. Sua pesquisa tem como eixo a condição humana em suas dimensões psíquicas e emocionais, onde mente e corpo se manifestam na consciência.
Essa investigação se materializa sobretudo no barro. Na interação com essa matéria sensível, Rama encontra um campo de elaboração.
Atravessada pela dança, encontra no movimento uma fonte para investigar as marcas que a vida inscreve em nós. A argila registra o gesto, as tensões, o tempo vivido e também o repouso, na contemplação.
A pesquisa se desdobra ainda na ilustração e na narrativa, que levam essas questões para o campo do lúdico. Na tapeçaria, o fio também guarda gesto, tempo e repetição.
Experimentos, testes e processos.